O dia em que os Rolling Stones pisaram no Maracanã

Em 1995, dez anos após o primeiro Rock in Rio, o Brasil já havia se firmado como rota para os grandes artistas internacionais. Naquele ano, o finado Hollywood Rock chegava a sua penúltima edição. Deixou saudade, eis que foi extremamente importante para que o país ficasse mais conhecido no "show business" estrangeiro. Graças ao festival, grandes nomes como Nirvana, Red Hot Chili Peppers, Duran Duran, Supertramp, Living Colour, entre vários outros, fizeram os seus primeiros shows por aqui. E a apresentação do Rolling Stones foi a trilha sonora para o enterro de luxo do Hollywood Rock.

Devido a grandiosidade do evento, o palco da Praça da Apoteose foi substituído pelo do Maracanã, então o maior estádio do mundo. E o grande diferencial é que os Stones chegaram por aqui com a sua estrutura completa de palco. Antes deles, poucos artistas haviam se aventurado em trazer um palco animalesco para a América Latina. Provavelmente somente Madonna (em 1993) e o Queen (em 1985) chegaram a tanto. Com relação ao Queen, o principal nome da primeira edição do Rock in Rio, todas as outras bandas que tocaram no festival (incluindo nomes como Iron Maiden e AC/DC) tiveram que usar a estrutura de luz da banda inglesa.

E quando chegaram por aqui em 1995, os Rolling Stones montaram o seu palco com toda pompa e circunstância. E as bandas de abertura (Barão Vermelho, Rita Lee e Spin Doctors) tiveram que se contentar em fazer as suas apresentações bem na beiradinha do nababesco palco. Tirando a chuva - que detonou os instrumentos dos artistas em São Paulo -, provavelmente eles não devem ter se importado com esse detalhe.

O álbum "Voodoo Lounge", que estava sendo divulgado naquela turnê, havia sido lançado em junho de 1994. Antes de chegar ao Brasil, Mick Jagger e companhia já haviam rodado os Estados Unidos e a Europa. Em meados de janeiro de 1995, no México, os Stones iniciaram a sua perna latino-americana. No Brasil, os concertos estavam agendados para os dias 27 e 28 de janeiro no Estádio do Morumbi (SP), e 02 e 04 de fevereiro no Estádio do Maracanã (RJ). Uma semana antes dos shows em São Paulo, o Morumbi foi interditado, devido a fissuras em suas arquibancadas. Os shows acabaram sendo transferidos para o Estádio do Pacaembu que, devido a sua capacidade menor, ganhou uma terceira apresentação, realizada no dia 30 de janeiro. Troca de ingressos, dor de cabeça, mas, no final das contas, muita gente ficou feliz pela oportunidade de ter mais uma oportunidade de ver os Stones.

Os palcos eram tão gigantescos, que dois idênticos chegaram ao país, um para cada estádio. Segundo informações do livro "Sexo, Drogas e Rolling Stones", de José Emilio Rondeau e Nelio Rodrigues, o palco media 32 metros de altura, 72 de largura e 26 de profundidade. O seu peso total chegava a 480 toneladas. Ainda havia uma cobra gigante de 30 metros de altura, que cuspia fogo, e um gigantesco telão, de altíssima definição, que transmitia o show através de 14 câmeras. Ou seja, tudo do tamanho da maior banda de rock do planeta.

Naquele período (meados dos anos 90), havia uma certa competição velada entre os Stones, o U2 e o Pink Floyd para ver quem conseguia construir o maior e mais deslumbrante palco. E fato é que, nunca na história dos shows de rock no Brasil, a gente havia presenciado algo igual.

Depois das três apresentações em São Paulo (debaixo de muita água), Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ron Wood desembarcaram no Rio de Janeiro. O primeiro show carioca aconteceu no dia 02 de fevereiro de 1995. E, para variar, antes de as pedras rolarem, a chuva rolou. O Barão Vermelho fez uma curta e competente apresentação com base no seu álbum "Carne Crua", abrindo espaço para Rita Lee, que colocou todo mundo para dançar debaixo de uma típica chuva de verão, que levantava muita fumaça do chão, devido ao forte calor que quase derreteu as pessoas que chegaram cedo ao estádio.

Em seguida, foi a vez dos Spin Doctors, que, por pouco, não foram expulsos do palco, com tantas vaias e objetos arremessados. Pouco depois das 22 horas, a imensa cobra começou a cuspir fogo. Quem estava perto do palco sentiu bem o calor... A batida cadenciada de bateria em "Not Fade Away" levou o público à loucura.

O clássico "Tumbling Dice", do álbum "Exile On Main Street" (1972) causou urros da plateia, com o riff inicial da guitarra de Keith Richards. Àquele momento, a chuva já tinha ido embora (e já estava fazendo falta), mas ainda restavam algumas poças nas tábuas que cobriam o gramado do Maracanã. A terceira música do roteiro foi "You Got Me Rocking", que faz parte do disco "Voodoo Lounge", e, hoje, já é considerada um clássico do grupo inglês. Do disco que estava sendo lançado à época, naquele dia 02 de fevereiro, a banda britânica ainda atacou com "Sparks Will Fly" (durante a qual a imensa língua do logotipo dos Stones no telão parecia querer lamber o público), a balada "Out Of Tears", o primeiro single "Love Is Strong", "I Go Wild" e "The Worst", esta última cantada por Keith Richards em seu momento solo.

Pode ter parecido um número grande de "canções novas" para o primeiro show da história dos Stones no Brasil. Mas você acha que alguém se importou com isso? Até mesmo porque, rolaram inúmeros clássicos do grupo. Além das músicas antigas mais obscuras, como "Shattered", "Rock And a Hard Place" e "Before They Make Me Run" (também interpretada por Richards), os Stones apresentaram aqueles clássicos imortais que todos conhecemos de cor.

E o primeiro deles foi exatamente "(I Can't Get No) Satisfaction", a sétima música do roteiro. Provavelmente nem no início dos anos 80, quando Zico levou o Flamengo à conquista de dois campeonatos brasileiros, aquelas velhas arquibancadas balançaram tanto. E balançaram mesmo. Qualquer pessoa do gramado, olhando mais atentamente, podia reparar que aquilo tremia absurdamente. "Miss You", "Honky Tonk Women", "Sympathy For The Devil", "Gimme Shelter" (com direito a um grande vocal da cantora de apoio Lisa Fischer), "Street Fighting Man", "Start Me Up", "It's Only Rock n' Roll" e "Brown Sugar" (durante a qual Mick Jagger jogava bales de água na platéia) foram outros grandes sucessos que entraram no repertório da turnê.

No meio da apresentação ainda houve um momento mais intimista, com as baladas "Out Of Tears" (de "Voodoo Lounge") e "Angie". Naquela turnê ainda não havia a imensa passarela da "Bridges To Babylon Tour" e nem o palquinho no meio do gramado. Mas, durante, "Angie", uma pequena parte do palco foi arrastada para mais perto do público, que pôde finalmente ver que Mick Jagger era realmente de carne e osso.

No bis, os Stones atacaram com uma versão mais longa de "Jumpin' Jack Flash". Não precisava de mais nada. Nos últimos acordes de guitarra, fogos explodiram em cima do palco, causando um efeito visual impressionante.

Na crítica escrita pelo jornalista Antonio Carlos Miguel, e publicada no jornal O Globo, no dia 02 de fevereiro, a síntese perfeita daquele show: "Só vendo para crer. Até os céticos saem dos estádios acreditando que os Rolling Stones realmente fizeram um pacto com as entidades do vodu".

Madonna, The Police, Ivete Sangalo, Kiss, Sting, Paul McCartney, Guns 'n Roses, George Michael... Muita gente de peso já pisou naquele palco do Maracanã. Mas as pedras nunca rolaram como naquele dia 02 de fevereiro de 1995. E provavelmente nunca mais rolarão...

Em seguida, o encerramento do segundo show dos Rolling Stones no Maracanã, no dia 04 de fevereiro de 1995.

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